quarta-feira, 15 de abril de 2009

Mudei de casa

Ola a todos. Lamento, o meu teclado esta sem acentos, nao entendo porque.
Quero informar todos os leitores que o blog fez 2 anos de existencia. De maneira que decidi dar-"lhe" um miminho. Mudei-o de caca. Mudei-o para o WordPress. Com um novo visual, melhores caracteristicas e o começo de uma nova vida, achei que era a melhor opçao.

o novo endereço e o seguinte:

aquichove.wordpress.com


O novo blog contem todos os posts publicados ate' agora... Tal como as pessoas, quando mudam de casa, retem as memorias :D

Bem-hajam,

F.d'A.

sábado, 11 de abril de 2009

Reserva-me

Tinha acabado de acordar e so pensei: "Vamos apaixonar-nos, amor?
Vamos ser frases feitas, vamos brilhar no escuro, vamos ser aquela luz? O que sentes por mim?"
O Outono veio e foi-se. E nós olhávamo-nos. Dizíamos adeus um ao outro, olhando os olhos de cada qual. E eu sabia que tu eras quente. E eu adorava aquele calorzinho, que desconhecia. Tinha saudades do futuro de nós. Tinha-nos saudades.
Uma vez, estava a dormir e alguém me segredou ao ouvido. Só abri um olho, com medo. Era Deus. Sempre achei que eras tu que o tinhas mandado. Sempre achei que tu eras o mentor de Deus. Mas eu nunca acreditei n'Ele.
Não percebi bem o que ele me disse. Qualquer coisa relacionada com tornozelos. Eu... Olha, voltei a adormecer. De manhã, achei que tinha sido um sonho. Não liguei.
Cheguei à paragem, no primeiro dia de Primavera. Estava um dia chuvoso. E lá foi o autocarro, bufando com todas aquelas pessoas. Procurei-te com os olhos, mas nem reparei se estavas lá ou não. Parecia que eu me estava a desvanecer, senti-me a desvanecer.
Levei um murro na cabeça e qualquer coisa aconteceu. Fui sugada por uma luz brilhante.
E pronto, naquele momento apercebi-me que se tinha passado o que se passa com todos. Foi aquele momento entre o acordar e o adormecer, em que todas as coisas são possíveis e em que os sonhos se misturam com a realidade. Foi um sonho? Foi. Tornado realidade? Sacrificarei qualquer coisa para saber o que me reserva. Dou toda a minha vida por um dia de ilusão.
Só um pensamento de ti... Só o teu pensamento em mim... Reserva-me.

[Desculpem a ausência. Grandes ventos aí vêm. Grandes desarranjos e modificações. Grandes corações se aproximam. Beijo àqueles que acompanham o louco]

domingo, 22 de março de 2009

Desculpas pela ausência inapropariada sem aviso prévio

Caros e prezados leitores:

as minhas obrigações pessoas obrigam-me a não ter podido escrever durante quase um mês. É com tristeza que vos informo que o blogue, nos próximos tempos, não vai ser escrito por mim. Provavelmente, nas férias da Páscoa, actualizarei. Mas o trabalho, a que tanto obriga, obriga também a esta ausência por tempo indefinido. Peço-vos mil desculpas. Mas é importante concentrar-me nos estudos durante algum tempo. De qualquer forma, prometo não deixar de escrever. O que for rabiscando aqui e acolá, postarei quando tiver tempo.
É só uma fase, que passará :)

Obrigadíssima pela compreensão.
Bem-hajam

PS: Deixei de ser a Loucura. Tal como a minha vida mudou, também o pseudónimo mudará. Passarei a ser o Fernando d'Almeida.

domingo, 8 de março de 2009

O casamento

Eu - Sinto-me sozinha, perdida em mim. Perdida num lugar que conheço demasiado bem. Perdida no meio das coisas boas da vida. Digam-me lá, toda a gente quer bons amigos, boas notas, boa vida familiar, bons sonhos, um filho obediente... E se eu for assim? E se eu disser que não sou feliz? Não sou, caramba, não sou. E não te percebo. Não percebo onde está o teu erro, deficiente! Vá, isso, goza de ti própria. Mas goza tudo de uma vez, para quando tiveres de voltar à tua vidinha ridícula, que muitos consideram perfeita, não te descaires e não mostares o teu cu feio. Estás tão mal-criadona, poça! Não eras assim.

Diabo - Pensas que os outros vão remediar os teus erros por ti, não pensas? Pois claro! Habituada às mordomias, dá nisto. "A menina está habituada a ter os probleminhas todos resolvidos pela mamã?É?" Tumba, um pontapé no rabo, que até viras de lado! Escreves tão mal. Não sabes escrever, sua parva! Então porque é que escreves? Cala-te! Não escrevas mais, que não vale a pena. Não, não, vale sim, vale a pena, porque, assim, os outros vão ver o estupor que és. E pode ser que te sintas melhor. Com a compreensão dos outros.

Vai mas é enfiar a cabeça nos livros, marrona! Sua estúpida! Sua parvalhona! Nem uma cereja sabe comer! Baba-se toda! AH AH AH AH AH!

Eu - Cala-te, tu! Arde, mas é! Arde! Não tens nada, não tens para onde ir! Nem te conheces, ó parvalhão!

Diabo - Oh, bebé, chora já! CHORA! AH AH AH AH! És tão bruta! Tem tudo, a miúda, e ainda se queixa! Vejam-me lá isto! Tem amiguinhos, paizinhos (ou mãezinha, depende do ponto de vista! ahahah! chora outra vez!) estudozinhos! Tem a mania que sabe, a mania que que é a perfeição! A perfeição! É a perfeição dos diabos! É mais diabo do que eu! Vai-te embora, estúpida! Morre!~

Eu - Morre tu, coisa! Nem tens nome! Sabes o que é que eu não tenho?

Diabo - Diz lá, bebé, o que é o bebé não tem? Chupeta?

Eu - Não tenho uma chupeta que sirva de apaga lágrimas, apaga corações, apaga memórias.

Diabo - Queres uma chupeta "apaga"? Casa comigo e serás toda apagadinha!

Eu - Casemo-nos.

E assim dei a mão ao Diabo. Tivémos um casamento lindo! Muita luz! Muitas pessoas! Tantas pessoas conhecidas. No princípio, correu tudo bem. Até hoje. Não percebi o apagadinha. E não percebi que tudo ia voltar ao princípio. À perfeição de vida. Como era antes.
De maneira que este texto é um ciclo. Hoje é o princípio e o fim de mim.

quinta-feira, 5 de março de 2009

É o apoio e a compreensão, é...

Quando decidi mudar de escola e precisei das pessoas. Escrevi isto, mas não mostrei a ninguém. Por medo? Vergonha? Não sei. Provavelmente, por não saber o que estava a fazer. Agora sei. Fiz o que estava certo.

Há que distinguir a compreensão do apoio. A compreensão do assunto é minha e apenas minha, aquilo que é subjectivo afecta tudo de formas e quantidades diversas. Não peço a compreensão sobre a decisão que tomei seja ela precipitada ou não – essa parte do assunto só a mim me diz respeito. O apoio é indispensável para o fortalecimento da minha visão sobre o assunto e consequentemente a razão que me pertence.Quando um problema surge e se revela, está claro que não vou permanecer imóvel quando este me desassossega violentamente. Neste instante, o apoio não é imprescindível pois o problema ainda não atingiu uma forma que me ameace, por agora só preciso de sentir que o chão que piso é estável.A minha decisão é criticada por terceiros mas já intimida o sujeito em questão, consigo sentir o seu cuidado quando estou presente – a determinação consolida a minha decisão com o cair das horas e dos dias.Atrás do receio há o seu par, a inveja. Aqui já existe um desagrado surpreendido e quase inexperiente.Se a homogeneidade do meio ambiente não se adequa a mim, está claro que não me vou subordinar, governo-me com as minhas leis e valores. Tento integrar-me no grupo mantendo e destacando ligeiramente a minha autonomia. O erro que é espontâneo e aceito que possa estar situado na emancipação da aldeia homogénea e sei que criam diferenças e dificuldades mas tento conquistar as divergências não abandonando as minhas convicções.Não pretendo definir-me aqui como sujeito que sou, tento estimular a compreensão das minhas decisões que não são irreflectidas. Por muito que negue, a compreensão é ainda necessária para ajudar terceiros a entender-me não só em relação a este assunto mas outros, isto é, todo um conjunto que me vai construindo.Que fique esclarecido e verdadeiramente apreendido que não me resigno ao problema. A decisão é minha e está claro que aceito todas as censuras mas não alterarão nada do que já foi feito e decidido.Não vou reconsiderar e vou servir-me dos mecanismos que me fazem sentir segura e confortável em relação ao tema em questão. Ainda ousam criticar-me depois das razões apresentadas?Espero não ouvir que tudo isto parte do meu egoísmo peculiar, se tal acontecer só desvendará a incapacidade de se colocarem no lugar de quem pede um apoio que estabilize a base que eu penso ser relevante. Aguardo a tal compreensão.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Aparência de profundidade

-Adeus Laura.
-Adeus Joana.
(silêncio)
-Foi tão deprimente.
(silêncio)
-Adeus, Laura.
-Desliga tu.
-E se fosse a última vez?
-Que nos falávamos?
-Sim.
(silêncio)
-Boa noite, Laura.
-Desliga.
-Porquê?
-Desliga.
- pi, pi, pi...

Sabes porquê?
Porque não gosto de desligar quando não estou bem. Porque não me sentia bem comigo. Porque estava com medo. Com medo que me deixasses, algum dia. Porque tinha medo que me achasses conveniente para ti. E, sobretudo, porque gosto demasiado de ti para te deixar. E sim... Morria se te matasse.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Ela saíu

Ela deixou a mãe. Tinha 17 anos e alguns dias, quando saíu de casa. Levava uma saia florida e uma camisola com folhos. Pôs a mochila às costas, beijou os pais e saíu.
Apanhou o combóio, percorreu Portugal até ao Porto. Instalou-se num hotel, durante uma noite, a pensar no que iria fazer. A pensar se iria tirar um curso numa universidade em Portugal, ou se iria para fora. Tinha todo o dinheiro que queria, isso não era problema. Quando amanheceu, ela já tinha tomado uma decisão: iria, naquele mesmo dia, para a Grécia. Comprou os bilhetes, e seguiu. Chegou lá. Cheirava a abssinto. Toda a Grécia cheirava a álcool. Ela estranhou, mas não se deixou abater. Procurou um quarto e instalou-se, outra vez. Fez um telefonema para a universidade, escolheu o curso e encostou-se, a dormitar.

A mãe, tão preocupada que estava por não saber da filha, ligou para todos os hospitais em Portugal. Não estava em nenhum. O pai, naquela noite, chegou bêbado a casa, sem sequer poder abrir os olhos. A mãe continuou sem saber dela, continuou sem notícias.

O primeiro dia de aulas foi complicado. Mas não muito. Estava a habituar-se à terriola alcoólica. Todos bebiam e passavam os dias na borga.

E a mãe preocupada, cá em Portugal.

(Lamento imenso a minha falta de inspiração hoje... Prometo que o futuro deste blogue será mais promissor...)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A origem das espécies

"Já não te percebo. Não percebo se, quando choras, as tuas lágrimas são verdadeiras. Não percebo se me persegues com a tua amizade falsa e depois, se me tentas prender, chorando."
Ela pensava assim. E não era feliz. Elas eram, como que, namoradas. Amava-se uma à outra. Era uma amizade tão profunda, que se tinha transformado em amor. Um amor verdadeiro, sem barreiras. Um amor pesado, um amor incrivelmente pesado.
Os cabelos de uma eram cortados enquanto os cabelos da outra cresciam. Os olhos de uma embaciavam-se de emoção, enquanto os da outra ficavam vidrados num coração desfeito. Uma era o 6, a outra era o 9. Elas eram-se, uma à outra.

Uma vez, decidiram matar-se, em conjunto. Uma arranjou uma série de comprimidos e a outra preparou o local. Estava preparado. Era a primeira vez que tinham uma opinião comum sobre um assunto. Não queriam viver mais, a sua vida tinha-se voltado contra elas e já não suportavam todo aquele amor intemporal. O mundo era delas e elas habitavam-no, com indiferença.

Era a última vez que se viam. Conversaram sobre o assunto. Comçavam a sufocar-se. Era um sufoco de vida. Uma vida vívida, já vivida. Queriam-se tanto uma à outra, que o amor deixou de ser racional.

Engoliram os comprimidos. E esperaram abraçadas, pelos suores, pelos desmaios. Esperaram pela morte. E a morte veio. Com um lindo vestido cor-de-rosa, sedoso. Com uma pele branca e macia, pronta para levá-las. Mas só uma estava pronta. Só uma foi pela mão da morte. Subiram as escadas e desapareceram. A morte não quis levar a outra.
As duas amigas separaram-se. Para sempre.
A que viveu, não conseguiu viver mais. A que não viveu, viveu uma vida de mordomias que acalentavam o corpo.

A que viveu, vomitou lágrimas de desespero. Chorou tanto, que encheu o mar. A outra, que não aguentava vê-la assim, utilizou as mordomias que acalentavam o seu corpo, e transformou-se no Sol. Sempre que a Mar chorava, a Sol estava sempre lá para aquecê-la. Por isso, é que, em Inglês, Mar e Sol não têm sexo. (the sea, the sun). Em Português, os GRANDES HOMENS CONHECEDORES DA CIÊNCIA decidiram que o mar e o sol são masculinos, e não se fala mais no assunto.
OS grandes conhecedores da ciência são, efectivamente, Portugueses. Mas, nas cabeças deles, não navega nenhum tipo de mar nem de sol.
Porque a amizade é uma coisa incrivelmente simples e complexa.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Sim. Odeio-te.

Contemplo cadernos vazios. Vazios de letras, que o vento se encarregou de levar para fora da minha janela.
E tu não me ligas. Não queres saber de mim. Limitas-te a dizer-me um olá, que se reflecte no barulhinho irritante do messenger. Aquele "ti-ri-rim".
Desaparece-te. Já não te consigo ver.
Nem ouvir.
Mas "ele gostava tanto dela que começou a parecer parecido com ela...isto é o amor..."-Jorge Listopad

sábado, 3 de janeiro de 2009

Ensaio sobre a tua morte

Tenho medo que sejas a última vez que nos vemos. Tu morres e eu mantenho-me cá, porque quero viver, porque tenho força de viver, porque te quero e me quero. Quero continuar a abraçar-te para sempre, quero que sejas parte de mim.


Quero chorar. Só quero chorar, hoje.


E eu tenho a certeza que foi a última vez. A última vez que nos tocámos, a última vez que a amizade brilhou entre nós, o último suspiro de um sentimento sombrio anda mal descoberto pelos nossos adolescentes corações.

Sabes, às vezes lembro-me das nossas conversas pelo telefone. Daquelas em que tu dizias que te ias matar e eu chorava. E tu arrependias-te logo de mo teres dito. Mas eu chorava e os meus olhos ardiam. No entanto, não acreditava bem no que dizias que ias fazer. Outras vezes, até ficava acordada até bem tarde, a pensar como seria a minha vida sem ti. Se me ia realmente lembrar passados uns anos. Se o tempo acabaria por te apagar de mim. Mas na altura, era-me impossível pensar nisso. Não tinha noção da morte. Não tinha noção de quem éramos, de quem eras. E sabia que, no dia seguinte, tu estarias lá para me abraçar e para rires para mim.

Houve outra noite em que tu me disseste que te ias matar, mais uma vez. E eu, mais uma vez, não acreditei, mas chorei na mesma. Chorei porque sabia que eras capaz, que não estavas a gostar da maneira como vivias. Chorei porque não te davas valor, chorei porque eras importante para mim. E porque não sabia como reagir.
Foi o dia em que falámos mais tempo ao telefone. Falámos durante 7 horas. Falámos a noite toda. E tu estávas mal, e eu passei a noite toda a chorar, até que as lágrimas secaram. Mas tu estavas decidida, tu ias morrer, independentemente de eu subir o nível das águas do mar com o meu choro. Não interessava quem ias magoar, tu estavas demasiado frágil para me ouvires, para ouvires quem quer que fosse. Tu já não existias, a tua mente estava obcecada pelo pensamento da morte. Ao fim ao cabo, já tinhas morrido há muito tempo, e ninguém se tinha apercebido.

Quem me dera ter-te posto numa caixinha.

No dia seguinte, chegámos à escola com olheiras. Faltámos às aulas, justificámos com doença. E era. Doença de ti, doença de personalidade, doença de amizade. Mas ninguém queria saber. Queríamos resolver burocracias para não nos chatearem. Então limitámo-nos, mesmo, à doença.
Visitei a tua casa pela primeira vez. Vi o teu quarto, a tua cama. Era tudo tão frágil. Escondi a cara, escondi as lágrimas para não me veres chorar mais uma vez. Entretanto, tu foste à casa de banho. Liguei rapidamente à Carolina, que mal conhecia, e pedi-lhe, no meio de muitos soluços, para vir imediatamente ter connosco. Ela disse que ia aparecer, assim que conseguisse. E eu disse-lhe para ela deixar tudo, que eu precisava dela, que tu precisavas dela.

Quando regressaste da casa de banho, estavas toda molhada. Lembrei-me daquela vez em que me molhaste no centro comercial e que eu prometi que te ia bater. E, naquele momento, apeteceu-me bater-te. Mas controlei-me.
Tu perguntaste-me o que é que eu queria, porque é que eu tinha faltado às aulas, porque é que eu gostava de ti, perguntaste-me tudo e mais alguma coisa. Mas tornou-se tudo banal. Eu não respondi. Abanei a cabeça e tentei ignorar-te. Mas já era tarde. Não aguentei a pressão. Não sei o que me deu, agora vejo que foi disparate.
Saí porta fora, e só parei quando já estava em casa. A Carolina ligou-me, a dizer que tu não abrias a porta.

Liguei-te logo. O telemóvel estava desligado. Eu sabia o que queria dizer, mas recusava-me a acreditar. Olhei para as mensagens. Tinha uma mensagem tua. Não sou capaz de a reescrever. Dizias que eu era importante para ti. Revoltei-me tanto!! Tu estavas morta, eu tentei ajudar-te, eu juro que tentei! Eu percorri montes e vales para te ajudar, eu só te queria ver feliz. Eras das coisas mais importantes para mim.

Depois, veio o teu funeral. Conheci a tua mãe. Ela estava de rastos. (E tu que pensavas que ela não gostava muito de ti...) Não fui capaz de chorar. Não consegui. Estava apática. Tinha-me prometido uma série de coisas que se tinham desvanecido na tua morte. E tu já não existias. Vi a Carolina atirar-se para dentro da cova. Os teus pais foram lá buscá-la. Ela desesperou. Ela, que não era muito de mostrar o que sentia, mudou completamente. Quis que uma prenda que tu lhe deste fosse enterrada juntamente contigo.

E aquilo passou.

Ela foi sozinha para Barcelona, mas desencorajada. Eu acabei por tirar o meu curso no Porto. Começámos a falar-nos e agora somos boas amigas. No entanto, nada comparado à amizade que eu tinha contigo.
Agora, já com mais de sessenta anos, lamento-me por ter falhado a missão a que me tinha prometido. Lamento.
Nunca fui capaz de ser professora. Fui durante um mês, mas tinha muitos alunos com problemas parecidos aos teus. E eu não queria ser negligente mais uma vez. Abandonei a minha profissão, para a qual eu tinha uma vocação impressionante, diziam. Fui, durante toda a minha vida, cônsul em África. Mas limitava-me a lidar com papéis.

Pensava muito em ti, comecei a escrever um livro, que nunca acabei. Não era sobre ti. Era sobre uma pulseira que afogou um diamante. Era um conto infantil.

Entretanto, neste momento, vou escrevendo umas coisas. A guerra rebentou mais uma vez, tenho andado fugida. Vou contra o sistema, tenho uma revolta imensa dentro de mim.
Mas tu sempre foste "a" amiga. Aquela pessoa especial, com a qual eu contava. E morreste há uma série de anos. Já não posso fazer nada agora, não é?
Já não consigo aguentar esta pressão. Nunca chegaste a desaparecer de dentro de mim.

Bateram à porta. Deve ser a Carolina, que me veio visitar de Espanha.

Adeus, querida.
Prometo que não choro mais. Prometo.

[e toda a minha vida mudava se tu desaparecesses]

domingo, 28 de dezembro de 2008

A Fada

Ela é uma verdadeira mulher.


E tem montes de graça. Acho que, quando a conheci, não me era nada. Era mais uma pessoa, num lugar com desconhecidos. Eu era uma ervinha e ela era o trevo. E tinha quatro folhas, mas eu não reparei logo.

Uma vez, apercebi-me que ela tinha começado a fazer parte de mim. Adorava o seu dentinho, era mesmo engraçado. E adorava a sua maneira de se expressar. Os seus olhos abriam-se para mim, assim como o seu coração. No entanto, ela era tão frágil.


Ela não queria saber, estava a lixar-se para tudo (pensava eu), mas dava muito valor à amizade. Por outro lado, a distência mantinha-se, com uma certa cordialidade em toda a nossa potencial relação de amizade.

Ela era uma borboletinha, por quem eu me fui deixando levar, com o passar dos dias. As suas cores eram radiantes, brilhavam quando o sol incidia nelas. As suas asas tinham uma forma peculiar de bater, e ela planava ao vento. Tinha uma antenas sensíveis a qualquer gesto, toque, palavra ou brisa de rudeza. Mas ela era especial e só três ou quatro pessoas se tinham apercebido de que ela existia.


Se eu pudesse, arrumava-a num potezinho, deitava-lhe por cima os meus pós mágicos de fadinha e ela andava sempre comigo. Mas não, ela não vive sem nós, mas preza muito a sua independência.

E eu sabia que lhe podia ligar a qualquer altura. Porque as borboletas e as fadas nunca dormem. Quero dizer, eu sei que ela dormia comigo. Como sabem, as fadas têm muitos poderes, mas o que a caracterizava era a sua falta de auto-estima, a sua falta de si.


Ela era tão cheia dos outros e tão vazia de si.


Houve, uma vez, um velho gnomo que me contou que tinha sido por isso que a borboleta se tinha transformado em fada. Não se tinha transformado da mesma maneira que as outras. (as outras eram fadas por terem alcançado a perfeição). Ela tinha-se transformado em fada porque o Conselho Fadal, há muitos anos, tinha decidido que a próxima borboleta que fizesse um anjo olhar para ela e segui-la, seria a próxima Raínha das Fadas.

E eu perguntei, é claro, "porque é que tem de ser um anjo?" e ele respondeu-me exactamente assim:

"- As borboletas são frágeis, mas têm muita força interior. Só precisam de um anjo para as proteger dos perigos. Para além do mais, os amigos são anjos que nos levantam quando as nossas asas se esquecem de voar."

E aí, uma luz amarela incidiu sobre mim, os meus pés levitaram, ceguei por momentos.


E quando toda aquela paz passou, eu era um anjo, de mãos dadas com a minha borboleta.



[ Para ti, minha amiga, para que nunca te esqueças que eu vou ser o teu anjo e tu serás sempre a borboleta mais linda. Porque os maus momentos vêm e vão. Mas os anjos permanecem na luz. Quando quiseres, abraçar-te-ei e lever-te-ei nos meus braços, em direcção ao arco-íris. Enquanto isso não acontece, falaremos até que o teu corpinho frágil já não tenha forças e adormeça no meu regaço, longe das complicações da vida.]

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Flores de martírio

Maria acabara de depilar as pernas. Agora, ia vestir as suas collants de mousse, a sua saia creme e uma blusa qualquer engraçada. Preparava-se para o namorado, que aí vinha.
O espelho reflectia a sua raiva, que descarragava em cima do mundo. Os lábios carnudos, inchados de inveja da fotografia que estava como fundo do telemóvel, sua, modificada em photoshop, sorriam para si. Os olhos castanhos, normalíssimos, tinham um brilho especial, que se modificava quando ela sorria. Os seus dentes, muito direitos, faziam as delícias de qualquer dentista. Maria era perfeita.

Tocaram à campaínha. Calçou os seus saltos altos, à pressa, e saíu do quarto. A sala, âmpla e iluminada, encheu-se de figuras femininas, sensuais, cativantes. As musas da beleza habitavam na sala de Maria. Ela tentou resistir-lhes, mas elas lutavam contra ela, lutavam, lutavam! Foram arrancados cabelos, os sofás caíram, as bandejas de prata partiram-se, os espelhos cobriram-se de sangue. As unhas de Maria lutavam para não se desmancharem. Os pêlos nas pernas acabadas de depilar começaram a crescer. As olheiras resistiram ao corrector e os olhos tornaram-se covas. O cabelo estava desgrenhado, as unhas, sujas, os pés, calejados.

Continuavam a bater à porta.
Maria não estava apresentável. As figuras femininas tinham desparecido, só restava uma. Maria deixou-se ficar no chão, caída, rota, descalça, enquanto ela avançava. A porta abriu-se, ela saíu, e fechou-se.
E Maria percebeu que nunca se tinha lembrado de depilar os pêlos da sua alma.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Dia de Natal

Não me sinto digna suficiente para escrever sobre o Natal. Para poetizar o Natal, para cantar palavras sobre o Natal. Por isso, faço destas palavras, as minhas. Um Bom Natal.

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.


É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo os que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
e entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem em fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais adiante.

António Gedeão

sábado, 29 de novembro de 2008

A sociedade contada às crianças

Serves-me o mundo em bandejas de prata.
Vivo infeliz, solitária, amarrada na corda
Dos amores e da leveza que não se cala
Do silêncio que, sendo faca, me corta o pensamento.

Reza a história feita de retalhos,
Cosidos pelas mãos calejadas da Natureza,
Que ia uma pobre criança servir à mesa
Da mãe que chorava alhos.

Sem coração, a mãe Ira
Que não deixava a filha Luxúria brilhar
Porque aos alhos queria que ela servisse
Sem que se deixasse apagar.

Um dia, a Luxúria disse basta.
Rezou ao Diabo e à Beleza
Infiltrou-se na sociedade e, concerteza,
Se deixou levar pelo que não presta.

Rapidamente apareceu a Vingança
E a Sensualidade percebeu que era uma boa aliada.
Ora sim, ora não, faziam apostas.
E cada vez, a Luxúria ficava mais baralhada.

Até que ela se fartou, e quis voltar para casa.
Mas os portões estavam fechados e a moradia, selada.
Então, a marota da Luxúria percebeu que
A Vingança e a Ira eram um dupla tramada.

Sem mais histórias e rodeios,
A Luxúria não fez mais nada.
Olhou-se no espelho e descobriu
Que, para além de um leve arrepio,
Podia encontrar-se, ali parada.

A Preguiça apareçeu rapidamente
(Quem diria?)
Os espelhos têm destas coisas.
Se te queres encontrar, acaricia o teu ego, e nele, o coração poisas.
Verás que rapidamente algo surgirá
Se o espelho decidir que essa, a tua sina, será.

[e mesmo assim, há tamta gentalha que não percebe...]

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Quando a chuva cai lá fora e a água se transforma em poesia e escorre pelas vidraças

"Se, não raras as vezes, falamos de poesia em termos tão abstractos, é porque, na maioria das vezes, somos todos maus poetas. No fundo, o fenómeno estético é simples; só é poeta quem possui o dom de se deixar encantar e tem o dom de ver a multidão de seres espirituais que brincam e vivem à sua volta."

"E só é dramaturgo o homem que sente a necessidade irresistível de se transfigurar e de se exprimir em outros corpos e em outras almas".

Nietzsche, in Origem da Tragédia

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ainda oiço burburinho

Quando saí de casa, ainda dormias, agarrada à tua almofada.
Beijei-te os lábios carnudos e o teu cheiro deixou-me bêbada.
Aconcheguei-te o lençol e mandei que, atrás de mim, a porta se fechasse.
A nossa vida não passava de um sorriso consolado de prazes inesperados, burburinhos gritados e antíteses que se completavam.
Eu era tu, tu eras o meu coração, partido pelo tempo, que há muito passara por mim.
Envelhecêramos, e nem nos démos conta. Nem nos damos conta.
Já tenho 30 anos, tu tens mais uns quantos. No entanto, ainda se ouve um burburinho da nossa jovialidade corporal.
Se me pedissem para te descrever o quanto gosto de ti, diria às pessoas para procurarem a perfeição.
Se me pedisses para te descrever o quanto gosto de ti, sairia de casa sem fazer barulho, ordenando à porta que se fechasse atrás de mim. Não sem antes aconchegar o lençol ao teu corpo banido da terra, por ser tão perfeito.

Se, algum dia, ouvisses o burburinho que vem de dentro do meu coração...


[Amo-te]

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O amor é cego, surdo e mudo

Ficámos de nos encontrar na crista da onda que a mulher da bola de cristal disse que vira.
Empurra-me para ti, abraça-me, sufoca-me de amor. Desenvolve os teus sentimentos no arco-íris que passa por cima de mim. Assim, eu posso olhar para o céu, e tu estás lá. Apagarei todas as minhas dúvidas da minha mente, mas o meu coração continuará a murmurar baixinho, como se ele próprio não acreditasse. As minhas velas não incharão (ou incharão de problemas e preconceitos) e o meu barco naufragará. Terei uma rémora, constantemente, a tentar virar o meu pensamento. Entraste de repente, mesmo quando eu não estava preparada. E tu também não estás. Aliás, nunca vamos estar. Mas, para que de mim não te zangues, continuarei estéril de sentimentos, dura. E assim, continuaremos a conversar. Aquelas conversas amenas. E depois, quando eu te chamo "querido" tu nem ligas. Mas também, a que propósito ligarias?!

Se tudo tem fim, porquê dar ao amor guarida?

domingo, 9 de novembro de 2008

Caneta, cobra ou relações de plástico?

As nossas canetas nunca escreveram no mesmo papel. A tua, escrevia no papel do amor. A minha, num plano totalmente diferente. Não que fosse melhor ou pior era, simplesmente, bem diferente.
A tua caneta era sempre enchida pela tua paciência. Muitas vezes, não fizeste o que estava certo. És egoísta, querias-me só para ti. Não me querias partilhar, e não partilhaste. (À excepção do primeiro dia, em que jantaste, com agrado(suponho), connosco).
A minha caneta foi vazando, vazando, vazando. Há cerca de dois ou três anos, fez um borrãozinho e eu vacilei. Disse que não queria mais nada, cá para mim. A coisa tinha acabado. Mas não tive coragem para te dizer o que sentia, era de mais. Era pesado, duro, difícil e insensato.
E a tua caneta começou a riscar por cima da minha, com uma força que eu nunca vira. Eu bem que tentava virar a página, mas tu riscavas sempre por cima. Tornei-me mimada, por força das circunstâncias. Tornei-me mentirosa, falsa e egoísta. Tornei-me desinteressada por ti, de tanta força que fazias por cima dos meus riscos desenhados à deriva. As mãos esfriavam-se e eu sentia-me sempre infeliz quando falava contigo. Elas sempre me disseram que, desde que as tinha conhecido, sempre tinha dito que não gostava de estar contigo. E era verdade. Mas elas nunca foram as minhas reais confidentes. Nem a minha própria mãe. Não me abria, porque não queria, não conseguia. Era demasiado difícil. Era o meu segredo, que mal cabia no meu coração.

Depois, ganhei coragem, tomei a decisão mais complicada da minha vida. Nunca tinha agido com tanta dificuldade, mas a tinta da caneta estava a acabar. Desaparecera, rapidamente. E eu sentia-te tão cheio de tinta! Passavam-me pela cabeça uns mails que lera, uma conversas que tinha ouvido e umas atitudes que tinhas tomado no passado e que me afectavam agora (nunca aí fui, porque foi ela que me deixou, ela tirou-te de mim etc, etc...). Na altura crucial da minha vida não estavas lá.
Como queres reatar o passado se ele nunca existiu? Como queres que tudo apareça? Como queres que eu fique feliz quando te vejo, se fazia batota enquanto brincávamos? Como queres tudo assim?
Escorreguei no grande borrão, a tinta acabou e a tua caneta ficou cheia. Mas nem esperaste que a minha voltasse a encher. Desapareceste.
Supostamente, já esperaste tempo suficiente, não foi?
Pois foi, tens razão. Eu também esperei muito tempo que cá pusesses os pés. Esperei até aos meus 10 anos. Não apareceste, nunca. E pronto. A tinta acabou e eu envenenei-me. Agora sou uma cobra má e venenosa. Que já nem consegue chamar de seu àquilo que antes foi parte de si.
Acabou de chover.
E perante este mau momento, ainda não consegui chorar.

[Confesso que há coisas difíceis de entender]

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Ama Deu(s)

Sussuras-lhe baixinho, ao ouvido
Magia efémera, alma vagueando por aí.
Deixas, por cá, o seu coração, contido
De tristeza e amor que só ela te pode dar.

Conversámos meses sem conta.
Uma música por trás falava-nos do teu futuro.
Ela é perfeita para ti. Ela respira-te.
Tu vives nela. Ela vive em ti.

Ontem foste. E foste mesmo.
Acho que só me apercebi disso hoje de manhã.
Já cá não estarias, a viver o nosso lento tempo
Do caraças, Amadeu, do caraças!

Para sempre ficará aquela noite no coliseu.
Noite encantada, vestido bordado, em cetim.
Amaste-a desde o princípio.
Nada acabou. Nada chegou ao fim.

Vomito-te em poesia.
Poesia barata, macaca.
Ou não fosses tu a única pessoa
A quem eu direi para sempre: "Minha "nhaca"!"

[Beijos, Amadeu. Estou a torcer por ti :D]

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Coração Português andando para lá de Espanha

A simplicidade é tão complexa, que nem ela própria se consegue explicar.

A porta da verdade foi aberta tão devagarinho. Mal pudeste ver o que sentias. Mas ainda te consigo sentir aqui. E já não nos vemos há décadas. Pelo menos, há décadas de meses. Gosto tanto de ti.
Mostraste-me o que era a cegueira. Era tão simples, mas tão complicada. Eu ceguei completamente. Já nada vejo, já nada me importa.

Seguir-te-ei até o arco-íris ter fim. Seguir-te-ei até o Sol do meu coração explodir.
Seguir-te-ei com toda a minha força. Transformar-me-ei em sereia, percorrerei os mares da preocupação; serei alpinista e escalarei as montanhas do desengano.
Mas todas estas frases deixarão de ser feitas ,quando te encontrar e nos abraçarmos como a mãe embala o bebé para adormecer.

Segue-me tu, também. E, sobretudo, embala-me.